Como extrair dados de PDF para planilha com IA

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Rodei o mesmo PDF em dois assistentes de IA, com o mesmo prompt, no mesmo minuto.

Um apagou 24 valores e me garantiu que não tinha faltado nada.

O outro trouxe os 24 e inventou duas colunas que não existem no documento.

Os dois pareciam ter funcionado. É esse o problema.

O caminho curto: suba o PDF no ChatGPT ou no Gemini, peça a tabela sem alterar nenhum valor, peça o resultado separado por ponto e vírgula no padrão brasileiro e cole na planilha. Depois confira as colunas e os nomes delas contra o original — não as linhas. A extração leva três minutos. A conferência leva dois, e é ela que separa uma planilha certa de uma que só parece certa.

Por que copiar e colar não funciona

Você já tentou. Seleciona a tabela no PDF, cola na planilha, e vem tudo empilhado numa coluna só.

Não é você fazendo errado. É que PDF não guarda tabela. Ele guarda posições de texto na página. Aquela grade que você está vendo é ilusão: não existe estrutura de linha e coluna por baixo. Ao copiar, o programa devolve os pedaços na ordem em que estão gravados no arquivo, que raramente é a ordem em que você lê.

É aqui que a IA ajuda: ela reconstrói a estrutura olhando o layout. Um estagiário rápido, que entrega em dez segundos e nunca avisa quando não conseguiu.

Os três prompts

1. Extrair. Anexa o PDF e manda:

Extraia a tabela deste PDF e devolva em formato de tabela, com uma coluna por
campo. Não resuma, não agrupe e não altere nenhum valor. Se algum valor estiver
ilegível, escreva ILEGÍVEL em vez de adivinhar. Mantenha a ordem original das
linhas.

2. Formatar para colar.

Devolva a mesma tabela separada por ponto e vírgula, sem cabeçalho decorativo,
para eu colar direto no Google Sheets. Use vírgula como separador decimal, no
padrão brasileiro.

O padrão brasileiro você tem que pedir. Sem isso vem ponto no decimal, a planilha lê como texto, e você fica com uma coluna de números que se recusa a somar. No Sheets: cola numa célula, depois Dados → Dividir texto em colunas → ponto e vírgula.

3. E o terceiro, que eu achava que conferia.

Conte quantas linhas de dados existiam no PDF original e quantas você devolveu.
Se os números forem diferentes, aponte quais linhas faltaram.

Guarda esse prompt para ver o que ele faz. Não para confiar nele. Já chego lá.

A conferência de dois minutos

Contar linhas não pega coluna perdida, valor deslocado nem rótulo trocado. É isso que eu faço agora:

  1. Conta as colunas do original e do resultado.
  2. Lê o cabeçalho contra o PDF, nome por nome. Rótulo inventado não deixa buraco para você notar.
  3. Olha se todas as linhas têm o mesmo número de campos que o cabeçalho. Se o cabeçalho for mais comprido, o problema está nele.
  4. Procura sinal de igual no começo de qualquer célula. Se tiver, cola como texto puro antes de dividir em colunas.
  5. Confere três valores na mão — começo, meio e fim — apontando para a célula no PDF aberto do lado.
  6. Se o documento importa, roda nos dois. Onde discordarem, um está errado.

Cada um desses passos existe porque pegou um erro de verdade. O resto do texto é como.

O teste: os dois erraram

Peguei o Focus, o relatório semanal de expectativas do Banco Central. Duas páginas, duas tabelas, 25 colunas, decimal em tudo e setinhas ▲▼ no meio dos números.

Rodei os três prompts no Gemini Flash e no ChatGPT, mesmo arquivo, mesmo minuto. O ChatGPT numa conta gratuita, o Gemini numa conta paga. Guarde essa parte: quem apagou os números foi o que eu pago.

O Gemini apagou 24 números e disse que não faltou nada

No relatório, 2026 e 2027 têm uma coluna com o número de respondentes dos últimos cinco dias úteis. Na linha do IPCA em 2026 esse número é 55.

Na resposta dele, depois do 5,10 já entra o 4,10, que é 2027. O 55 não está ali. Nem o de 2027, nem o das outras onze linhas: 12 linhas, 2 colunas, 24 valores que sumiram sem um pio.

Aí mandei o prompt de conferência. A resposta:

O PDF original possui 16 linhas de dados. Foram devolvidas exatamente 16 linhas. Nenhuma linha ficou faltando.

Ele está certo. E não serve para nada. Nenhuma linha faltou — duas colunas faltaram. Ele contou o que eu pedi para contar e o erro passou por baixo da checagem que eu mesmo inventei.

Pior que apagar: ele deu o nome da coluna que apagou para a vizinha. Um dos valores é a mediana das projeções; o outro é quantas pessoas responderam. Ele apagou a contagem e chamou a mediana de “Resp. 5 dias úteis”. Você abre a planilha, lê “número de respondentes”, e está olhando uma projeção de inflação.

O ChatGPT inventou duas colunas

Ele trouxe os 24 valores, na ordem certa. E escreveu um cabeçalho de 27 colunas para uma tabela de 25, criando 2028 5 dias úteis e 2028 Resp. ***, que não existem no relatório.

As linhas dele têm 25 campos, o número certo. Então tudo depois de 2028 senta duas casas antes do rótulo certo: onde ele escreveu “2029 Há 1 semana” está um marcador de tendência, e onde escreveu “2029 Hoje” está uma contagem de respondentes.

Um apagou dado e manteve a grade honesta. O outro preservou cada valor e inventou a régua que descreve eles. O segundo é mais difícil de achar, porque não falta nada — só está tudo com o nome errado.

E 32 células viram fórmula quando você cola

Essa eu só vi contando célula por célula.

O Gemini escreve a coluna de comportamento semanal assim: =(3)=(45)=(122). Com o sinal de igual na frente, porque no relatório o símbolo de estabilidade é um igual.

Cola no Sheets e o igual não é texto: é o começo de uma fórmula. =(45) é expressão válida, então a célula não dá erro, não fica vermelha, não reclama. Mostra 45.

O marcador de “estável há 45 semanas” virou o número 45, no meio de uma coluna de percentuais, com cara de dado. São 32 células no arquivo. O do ChatGPT tem zero.

Quando o grátis deixa de servir

Volume. Um PDF por semana, tranquilo. Trinta notas fiscais uma a uma no chat é castigo.

PDF escaneado. Sem texto embutido, a leitura vira reconhecimento de imagem e a precisão cai em número.

A conferência. Checar leva quase o mesmo tempo que extrair. Em volume, isso não escala — e é aí que ferramenta dedicada se paga.

Antes de subir qualquer documento

Usei um relatório público de propósito.

Não sobe: extrato com conta e agência de verdade, documento com CPF de terceiros, contrato de cliente, folha de pagamento, dado de paciente, nada sob confidencialidade.

Se precisar mexer num desses, anonimiza antes: nome vira “Cliente A”, documento vira zero, conta e agência saem. Se for tarjar, exporta o arquivo achatado — em muito editor a tarja é só camada visual e o texto continua selecionável embaixo.

E confere a configuração da sua conta. O padrão varia com a ferramenta, o plano e o tipo de conta, e muda de um mês para o outro. Pagar não garante nada. Se for documento de trabalho, confere também a política interna: muita empresa proíbe upload em ferramenta pública, e a proibição vale mesmo que ninguém tenha avisado você.

O mesmo teste, em vídeo

Três minutos e meio, com as telas na ordem em que aconteceram. Se você prefere
ver a coluna sumindo a ler sobre ela, é por aqui.

Perguntas que sobraram

Funciona com PDF escaneado? Funciona pior. Quanto mais torta a imagem, mais número errado. Confere valor por valor.

E se a tabela passa de página? Costuma funcionar. Olha se o cabeçalho repetido da segunda página não virou linha de dados.

Então o ChatGPT é melhor que o Gemini? Nenhum dos dois passou. Um apagou 24 números; o outro inventou dois nomes de coluna. Numa planilha que alguém vai usar para decidir, os dois terminam no mesmo lugar.

Fontes e leituras


Testado em 25 de julho de 2026, com o Focus de 10 de julho de 2026. ChatGPT em conta gratuita, Gemini Flash em conta paga. Ferramenta de IA muda toda semana — se você vir comportamento diferente, me conta.

Tá aí o seu atalho.

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